



Os testes que produziram os resultados desapontadores -- mas não inesperados -- foram conduzidos como parte da iniciativa desencadeada ano passado, em resposta ao forte lobby pró-liberação da "fosfo", formado depois que uma combinação de jornalismo irresponsável, pusilanimidade oficial, ignorância e populismo criou o mito de que a a substância seria uma espécie de cura milagrosa para qualquer tipo de câncer. Em plena crise fiscal, o MCTI, nunca o mais prestigiado dos ministérios me termos orçamentários, conseguiu levantar R$ 10 milhões para "acelerar" os testes e a eventual liberação legal da substância.





O relatório do MCTI descreve os resultados da primeira bateria de testes in vitro, nos quais o remédio proposto é inserido no meio de cultura das células tumorais. É importante lembrar que o in vitro é um dos testes mais propensos a gerar falsos positivos, já que, como se diz, é possível matar células de câncer pondo cândida ou detergente no meio de cultura.





Resultado: isolada e pura, a fosfoetanolamina é inútil contra os dois tipos de câncer, mesmo em concentrações absurdamente altas, e quando escrevo "absurdamente" quero dizer: vários milhares de vezes mais altas que as necessárias para obter bons resultados com drogas tradicionais de quimioterapia.





No que poderia ser visto como uma virada irônica, um dos contaminantes da "fosfo" de São Carlos -- a monoetanolamina -- se mostrou tóxica para os tumores testados, mas em concentrações de 7 mil a 70 mil vezes maiores que as drogas tradicionais de quimioterapia. Isso quer dizer que são necessários até 3 litros e meio de monoetanolamina para se obter o mesmo benefício que uma gota de quimioterapia comum. In vitro.





O relatório do MCTI conclui descrevendo as próximas etapas do estudo: teste in vitro da "fosfo" (e, também agora, da "mono") contra células de câncer de pulmão, contra células humanas saudáveis e o início dos testes em camundongos.





in vitro contra células de outros tipos de tumor -- colorretal, próstata, glioblastoma (cérebro) --, também concluiu que a substância não tem efeito, ou só tem efeito em concentrações milhares de vezes maiores que as da quimioterapia comum. Um segundo relatório divulgado pelo MCTI, que testou a toxicidade da "fosfo"contra células de outros tipos de tumor -- colorretal, próstata, glioblastoma (cérebro) --, também concluiu que a substância não tem efeito, ou só tem efeito em concentrações milhares de vezes maiores que as da quimioterapia comum.





Os autores desse trabalho, no entanto, sinalizam algum otimismo, ponderando que, embora os testes in vitro sirvam para fazer a triagem de moléculas promissoras -- triagem em que a "fosfo", não dá para negar, fracassou -- é concebível que os resultados em cobaias vivas sejam melhores, "possivelmente por depender de rotas metabólicas". É uma esperança talvez admirável, frente o enorme investimento emocional de milhares de pessoas na suposta eficácia da "fosfo", mas fica a questão de até que ponto ela faz mesmo sentido.









Adendo (28/3): Na última semana surgiu um coro bem afinado de críticas a supostos "erros metodológicos" do processo de análise conduzido pelo Grupo de Trabalho do MCTI. Dois pontos, a meu ver, merecem destaque especial.



Um deles é a forma irresponsável, despreocupada e negligente com que essas réplicas tratam o fato de as cápsulas distribuídas pela USP não terem, sequer, peso consistente ou correspondente ao declarado na embalagem. Afinal, se tanto faz o paciente receber 200 mg, 300 mg ou 500 mg de "fosfo", por que não 1 kg, ou zero? Essa indiferença quanto à relação dose-resposta e seu impacto na saúde dos pacientes é assombrosa, do ponto de vista humano, e uma evidência forte de que o único efeito esperado -- talvez até mesmo pelos proponentes da droga -- é o de um placebo inócuo.



O segundo é a alegação de que parte dos contaminantes encontrados nas cápsulas -- incluindo



Outras críticas metodológicas, supostamente mais sofisticadas, também foram feitas ao trabalho patrocinado pelo MCTI, e estão sendo analisadas, ponto a ponto, no O acervo completo de relatórios do MCTI sobre a "fosfo" pode ser acessado aqui Na última semana surgiu um coro bem afinado de críticas a supostos "erros metodológicos" do processo de análise conduzido pelo Grupo de Trabalho do MCTI. Dois pontos, a meu ver, merecem destaque especial.Um deles é a forma irresponsável, despreocupada e negligente com que essas réplicas tratam o fato de as cápsulas distribuídas pela USP não terem, sequer, peso consistente ou correspondente ao declarado na embalagem. Afinal, se tanto faz o paciente receber 200 mg, 300 mg ou 500 mg de "fosfo", por que não 1 kg, ou zero? Essa indiferença quanto à relação dose-resposta e seu impacto na saúde dos pacientes é assombrosa, do ponto de vista humano, e uma evidência forte de que o único efeito esperado -- talvez até mesmo pelos proponentes da droga -- é o de um placebo inócuo.O segundo é a alegação de que parte dos contaminantes encontrados nas cápsulas -- incluindo o veneno monoetanolamina -- é um artefato do processo de análise, e não um componente original das cápsulas. Essa alegação, que equivale a uma acusação de incompetência lançada contra os responsáveis pela análise, é feita sem que nenhuma prova de que esse é realmente o caso seja oferecida. O que temos é, de um lado, um laudo científico e, de outro, a palavra de alguém que diz, sem nenhum razão concreta, que acha que o laudo não presta.Outras críticas metodológicas, supostamente mais sofisticadas, também foram feitas ao trabalho patrocinado pelo MCTI, e estão sendo analisadas, ponto a ponto, no blog Gene Repórter

O pó produzido na USP de São Carlos, encapsulado e distribuído como "fostoetanolamina sintética" para pacientes de câncer, contém no máximo 32% da molécula pura; e essa molécula é completamente inútil, mesmo em testes, contra tumores de pâncreas e melanoma. As conclusões estão em relatório publicado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, MCTI e que, temo, será ignorado pelas vítimas do verdadeiro culto que se formou em torno da substância, e pelos abutres, de diferentes plumagens, que esperam transformar o desespero dos doentes em votos ou dinheiro.